ILUSTRES (DES)CONHECIDOS: Joaquim Maria Leite (1829-1896)



Desde 1902 que o antigo Largo do Cruzeiro tem o seu nome. No entanto, a avaliar pelo estado de desleixo em que se encontra a sua campa no cemitério da Eirinha, poder-se-á concluir que estamos perante mais um ilustre (des)conhecido da grande maioria dos penacovenses.

Na sessão de 4 de Janeiro daquele ano, a Câmara Municipal, presidida por Daniel Silva, deliberou atribuir ao Largo do Cruzeiro a designação de “Largo do Deão Leite”. “Como público testemunho de gratidão pelos relevantes serviços prestados ao concelho de Penacova e como homenagem ao grande talento de alguns dos seus filhos - verdadeiras glórias nacionais” foram na mesma data atribuídas outras denominações toponímicas na vila: Rua Conselheiro Alípio Leitão, Rua Conselheiro Barjona de Freitas, Rua Conselheiro Fernando de Mello, Rua Arcediago Alves Mendes, Rua Dr. Paiva Pitta e Largo Dr. Joaquim Correia. [1]
Aspectos do Largo Deão Leite e da Rua Conselheiro. Fernando de Melo
Nos inícios do séc. XIX, José Manuel Leite[2], oriundo de Fafe, casou com uma senhora de Penacova, Florência Efigénia, passando a viver no Largo do Cruzeiro, na conhecida “Casa dos Leite”. Foram seus filhos José Maria da Conceição Leite, que foi pároco e arcipreste em Penacova, e Joaquim Maria Leite, o futuro “Deão Leite”.

Joaquim Maria Leite nasceu há 190 anos (Julho de 1829). Foi baptizado pelo Prior Francisco Correia de Almeida tendo como padrinhos o Doutor Joaquim Correia de Almeida e sua mulher, Maria do Santo Nome. No ano lectivo 1848/49 vamos encontrar Joaquim Maria Leite em Coimbra no 2º ano de Teologia. Dez anos mais tarde, também o seu irmão José Maria irá frequentar o mesmo curso, quando Fernando de Mello estudava Medicina e Alves Mendes frequentava o Liceu. Na época era professor da Universidade João Crisóstomo de Amorim Pessoa. Joaquim Maria foi seu aluno e quando aquele catedrático de Teologia foi nomeado Arcebispo de Goa e Patriarca das Índias (1862/63), convidou o seu pupilo para seu secretário pessoal.

Seminário do Chorão - Goa
Mas, em Goa, Joaquim Maria Leite foi mais do que um mero “administrativo”. Foi professor de Ciências Eclesiásticas[3] e Reitor do Seminário do Chorão (Bicholin), além de Chantre da Sé Primacial de Goa. Quando Amorim Pessoa chegou à Índia procurou elevar o nível da formação eclesiástica, reformando os estudos e centralizando-os naquele Seminário. Como reitor, “colocou o Bacharel Joaquim Maria Leite, Chantre da Sé” – conforme refere a “História de Goa” de Manuel Saldanha. O Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Silva, regista a obra deste penacovense, impressa em 1868: “Sermão de S. Francisco Xavier, Apóstolo das Índias: pregado no dia 3 de Agosto de 1864 na Igreja do bom-Jesus de Goa”.

Por motivo de doença teve de deixar a Índia, sendo pouco depois convidado para Professor do Liceu da Guarda, onde chegou a Reitor. Nesta cidade integrou o Cabido da Sé, não só na qualidade de Cónego mas também de Cónego-Deão. Daí, o conhecido atributo de “Deão Leite”. Naquela cidade da Beira Alta presidiu à Comissão para fundar o Asilo da Mendicidade.

Sé da Guarda
Joaquim Maria Leite ocupou, mesmo que por pouco tempo, por motivos de saúde, o cargo de Deputado por Penacova. Terá mesmo apresentado nas Cortes um projecto de lei para que o Mosteiro de Lorvão passasse a ser considerado Monumento Nacional, o que veio a acontecer, como sabemos, em 1910.

Acabou os seus dias em Penacova, onde viveu alguns anos, paralítico, vitimado pelo reumatismo gotoso, ajudando os necessitados e recebendo muitas visitas (era “um conversador muito instrutivo”, no dizer do Dr. José Albino Ferreira). “Com a sua doença muito perdeu Penacova”- escreveu noutra ocasião este penacovense.

Campa de Joaquim Maria Leite no cemitério da Eirinha

Morreu na madrugada do dia 6 de Agosto de 1896, com apenas 67 anos. O registo de óbito foi lavrado e assinado por seu irmão, Padre José Maria da Conceição Leite. Os seus restos mortais repousam no cemitério da Eirinha. A campa tem a seguinte inscrição: “À MEMÓRIA DE MEU IRMÃO O DEÃO DA SÉ DA GUARDA JOAQUIM MARIA LEITE NATURAL DE PENACOVA ONDE FALECEU EM 6 DE AGOSTO DE 1896 JOSÉ MARIA LEITE”.


[1] A rua Dr. Paiva Pitta, hoje inexistente, não se sabe porquê, vinha substituir a Rua da Costa do Sol. Por sua vez, o Largo Dr. Joaquim Correia, ficava em frente da porta principal da Igreja.
[2] Virá desta família o uso do apelido Leite por terras de Penacova. O Major Santos Leite terá sido um dos descendentes.
[3] No Seminário de Rachol, instituição da Companhia de Jesus, se formaram alguns dos mais brilhantes sacerdotes da Índia. Este seminário teve uma das primeiras tipografias da Ásia.

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