OPINIÃO - Hiprocrisia


Esta semana a política nacional conseguiu voltar a chocar-me.

O CDS conseguiu aprovar, com o voto a favor do PSD e a abstenção do PCP, uma proposta para eliminar a taxa adicional sobre produtos com excesso de sal.

A proposta em causa incidia sobre a criação de um novo imposto de 0,80€ por quilo sobre as bolachas, biscoitos, batatas fritas e desidratadas e flocos de cereais quando estes alimentos tiverem mais de um grama de sal por cada 100 gramas de produto. Com este imposto, o Governo previa um rendimento de 30 milhões de euros, uma verba que queria consignar ao Serviço Nacional de Saúde "para a prossecução dos programas para a promoção da saúde e para a prevenção da doença".

A proposta teve enorme impacto mediático quando foi anunciada e colheu apoio de vários quadrantes da sociedade. A Ordem dos Médicos saudou esta proposta, a Ordem dos Nutricionistas também, da esquerda à direita vários nomes importantes reconheceram que se tratava de uma boa medida.

A este ponto, o leitor mais inconformado perguntará: “Porquê?” Como pode o aumento do preço de bens alimentares ser uma boa notícia para a sociedade?

Todos sabemos os malefícios do sal e nós, Portugueses, consumimos sal a mais. A Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo diário de sal se limite a cinco gramas. Em Portugal, consumimos em média nove gramas. A redução do consumo de sal permitiria uma poupança de milhões de euros no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente em medicamentos de tratamento da hipertensão.

O argumento do CDS é que não é através de impostos que se resolve a questão.

Mas estão errados.

Vejamos o exemplo do imposto sobre as bebidas açucaradas. Seis meses depois da sua entrada em vigor o consumo das bebidas com maior teor de açúcar baixou em 20%, ao mesmo tempo que o consumo de bebidas com menor teor de açúcar subiu em 20%. Isto resultou em menos de 4200 toneladas de açúcar consumidas em Portugal em relação ao ano passado.

Em suma, o aumento dos preços de bebidas com muito açúcar levou a um menor consumo destes, o que despoletou uma reação do mercado que passou a dar prevalência a produtos com menos açúcar. Quão irónico que seja o mercado a destruir a argumentação do CDS.
Poucas vezes em democracia temos a oportunidade de ver medidas tão completas. O chumbo desta iniciativa tem uma única explicação.

Hipocrisia.


Rui Sancho 



PS:Este artigo foi feito com base na reportagem da SIC sobre o assunto. Não acrescento nada de novo ao que já foi dito, mas creio que o assunto merece reflecção e mais destaque do que dois minutos no telejornal. Deixo o link: http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-11-25-Consumo-excessivo-de-sal-e-um-dos-maiores-problemas-de-saude-publica.

3 comentários:

  1. Hipocrisia á achar aue "o consumo das bebidas com maior teor de açúcar baixou em 20%, ao mesmo tempo que o consumo de bebidas com menor teor de açúcar subiu em 20%". Porque, como qualquer pessoa bem informada deveria saber, o imposto acabou poir recair sobre as bebidas refrigerantes, independentemente de terem açucar ou não, deixando de fora outras bebidas com níveis de açucar muito superiores a algumas que esatão taxadas. Hipocrisia seria achar que agora as coisas seriam diferentes e que seria esta medida a travar o consumo de sal, quando, como qualquer pessoa bem informada deveria saber, estamos a falar de taxar produtos que representam menos de 2% do consumo de sal diário dos portugueses. Hipocrisia é usar argumentos demagógicos e achar que toda a gente os "ingere"...

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    1. É verdade que nem todas as bebidas com alto teor de açúcar foram abrangidas pelo imposto, e eu suspeito saber quais as razões. Agora, não é verdade que o imposto tenha recaído sobre bebidas refrigerantes independentemente de terem açúcar ou não. Portanto talvez queira rever o seu conceito de ser uma pessoa "bem informada".
      Se lesse o artigo com atenção perceberia que efectivamente esta medida baixou os níveis de consumo de açúcar, mais concretamente cerca de menos 4200 toneladas de açúcar consumidas em Portugal em relação a 2016.
      Por último, desafio o/a caro/a Anónimo/a a ver a peça jornalística que deixei em link. Lá está um senhor bem parecido de gravata a falar sobre a diferença que uma redução mínima no consumo diário de sal faria. Talvez esse senhor o/a convença, já que eu aparentemente não consigo.

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  2. Não querendo prolongar a discussão, o sr. Rui Sancho saberá, ou deveria saber, que as bebidas denominadas "zero" também foram taxadas. E essas são bebidas sem açúcar. Têm outros ingredientes para adoçar? Têm. Mas não têm açúcar que é o princípio da taxa criada. E muitas outras bebidas com açúcar ficaram por taxar. Por isso, o sr. Rui Sancho é que deveria rever o seu conceito de pessoa bem informada.
    E como pessoa pouco informada que sou, tenho sérias dúvidas que a descida do consumo de açúcar tenha sido a apontada, e mais dúvidas ainda que se tenha devido taxação de algumas das bebidas açucaradas (algumas, pois muitas ficaram de fora - independentemente das razões que o sr. Rui Sancho possa suspeitar).
    Em relação ao consumo de sal, lamento informar que não são senhores bem parecidos de gravata que me convencem. O que me convence são argumentos sólidos e bem explicados, o que os senhores fundamentalistas da saúde pública, que adoram impor aos outros as suas visões dogmáticas, não conseguem utilizar. Gostaria que me conseguissem explicar como é que a taxação de produtos de lazer embalados, que representam menos de 2% do consumo de sal em Portugal (dados objectivos dos serviços de saúde nacionais), iria fazer com que os portugueses pudessem ver a luz e ficassem livres da tentação do sal...

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